28/12/2007
A tireoglobulina (Tg) sérica é utilizada para monitorar o tratamento de carcinoma diferenciado da tireóide (CDT). O tratamento inicial consiste na cirurgia, seguida de ablação dos remanescentes tireoidianos com iodo radioativo. A dosagem da Tg sérica desempenha um papel chave no acompanhamento de pacientes com CDT, mostrando ser um acompanhamento sensível no pós-operatório. No entanto, a dosagem de Tg sérica é um dos maiores desafios laboratoriais por conta de interferências causadas pela metodologia utilizada para dosagem sérica de Tg, falta de padronização entre os métodos, limitada precisão entre ensaios, sensibilidade funcional inadequada e, especialmente pela presença de anticorpos (Ac) anti-Tg, que podem mascarar a presença de Tg sérica, dependendo do método utilizado. Diante disso é absolutamente fundamental a determinação de Ac anti-Tg nos pacientes com CDT.
Conhecer as reais interferências do anticorpo, quantificá-las e padronizá-las no acompanhamento dos portadores de CDT é tornar a interpretação mais confiável e mais fidedigna possível. A Tg é uma glicoproteína de alto peso molecular, de 660 kDa , formada por duas unidades idênticas, unidas por ligação não-covalente. Apresenta estrutura imunológica extremamente complexa e está envolvida em diversas respostas imunológicas.
Atualmente a metodologia disponível para medida de Tg consiste nos métodos por imunoensaios, a saber, o imunométrico (IMAs) e radioimunoensaio (RIE), além do método ELISA. O RIE vem sendo substituído por sucessíveis gerações de ensaios IMA. A metodologia IMA permite detecções de concentrações séricas de Tg inferiores a 0,1 ng/mL e apresenta vantagens técnicas, tais como menor tempo de incubação e um anticorpo reagente mais estável e, portanto, menos sujeito a danos em relação ao método RIE.
Porém, todos os métodos IMAs tendem a subestimar a Tg sérica na presença do anticorpo, provavelmente porque o complexo Tg Ac anti-Tg é incapaz de participar nos dois sítios de reação imunométrica.
Na prática não existe nenhum método de dosagem sérica de Tg isento de interferência pelo Ac anti-Tg. Portanto, é incerta a interpretação que deve ser dada a uma Tg em uma amostra com anticorpo anti-Tg positivo. Apesar das controvérsias em relação às exatas sensibilidade e especificidade dos diferentes ensaios de Tg, a dosagem seriada de Tg plasmática tem se revelado o exame mais sensível no acompanhamento pós-operatório, sendo utilizado como principal marcador tumoral.
O efeito em gancho afeta principalmente os métodos imunométricos, fornecendo valores falsamente baixos de Tg sérica. Isso ocorre quando a Tg está em níveis muito elevados, vistos em situações de doença metastática, excedendo a capacidade de ligação do anticorpo de captura. Sendo assim, o excesso de Tg não forma o "complexo sanduíche" no ensaio in vitro e não é quantificado. Para contornar o efeito gancho devem ser feitas duas diluições em cada amostra.
Anticorpos heterófilos são por definição anticorpos contra imunoglobulinas animais ou imunoglobulinas contra várias espécies de animais e que estão presentes em cerca de 3% das amostras. Nos ensaios imunométricos eles podem formar uma ponte entre os anticorpos de captura e o traçador, simulando a presença do antígeno (Tg), levando portanto a um resultado falso positivo de Tg. Raramente os anticorpos heterófilos podem dar resultados falso-negativos, e isso ocorre em situações em que anticorpos heterófilos se ligam diretamente ao anticorpo de captura, não permitindo que a Tg forme o "complexo sanduíche" com os anticorpos de captura e traçador.
A heterogeneidade do Ac anti-Tg parece ser mais restrita em pacientes com doenças auto-imunes da tireóide quando comparada com outras doenças, entre elas o CDT. Essa heterogeneidade maior em pacientes com CDT reflete diferenças qualitativas na afinidade do anticorpo e parece ser paciente-específica.
Todas as amostras séricas necessitam de rastreamento de Ac anti-Tg com um imunoensaio sensível para o anticorpo, antes mesmo da medida da própria Tg, para avaliar o risco de interferência, porque o comportamento do anticorpo muda a todo o momento e os resultados da determinação sérica podem ser alterados pela presença de Ac anti-Tg mesmo em baixos níveis. Sendo assim, é obrigatória a dosagem de Ac anti-Tg por imunoensaios juntamente com a determinação da própria Tg.
Referência:
HOOFNAGLE, A.; WENER, M. H. Serum thyroglobin: a model of
immunoassay imperfection. CLI Lab Technology, v.8, p. 12-14,
2006.
