Anexinas plasmáticas e sua relação com anticorpos antifosfolípides.


26/03/2009
 

Abortos espontâneos recorrentes acontecem em 1% de todas as gravidezes. A etiologia desses abortos é multifatorial, mas a idéia de uma associação entre abortos espontâneos recorrentes e trombofilia hereditária ou adquirida tem recebido apoio nos últimos anos. A presença de anticorpos antifosfolípide (aFL) é uma das causas mais comuns de trombofilia adquirida e é conhecida por elevar o risco de tromboses venosas e arteriais e resultados desfavoráveis nas gravidezes.

Enquanto o mecanismo causativo exato por trás dos eventos trombóticos relacionados à presença de anticorpos antifosfolípides ainda não é claro, esses anticorpos mostraram ter muitos alvos antigênicos, como protrombina, proteina C, proteina S, ativador de plasminogênio tecidual e anexinas, explicando o seu potencial trombofílico e levando à trombose placentária e infarto.

Anexinas são uma família de proteinas estruturalmente relacionadas que se aderem a fosfolipídos aniônicos de uma forma dependente de cálcio. A anexina mais conhecida, anexina V, possui propriedades anticoagulantes e a capacidade de deslocar fatores de coagulação de superfícies fosfolípides aniônicas. A expressão de anexina V tem sido observada na superfície de sinciciotrofoblastos, enquanto a expressão de anexina IV tem sido observada na camada basal de sinciciotrofoblasto na placenta. Portanto as anexinas, como anticoagulantes locais na placenta, podem ter papel importante em manter a gravidez, especialmente durante o primeiro trimestre.

Os autores conduziram um estudo para definir concentrações plasmáticas de anexinas IV e V no começo da gravidez, dentre as mulheres com um histórico de abortos espontâneos recorrentes e sem levar em consideração a presença de anticorpos antifosfolípides. O estudo incluiu 68 mulheres com abortos espontâneos recorrentes e 25 controles sem resultados desfavoráveis de gravidez. Os autores determinaram concentrações de anexinas IV e V no plasma utilizando ELISA em sanduíche. Distúrbios como trombofilias hereditárias ou adquiridas foram encontrados em 53% (36/68) dos pacientes que passaram por abortos espontâneos recorrentes. Níveis plasmáticos de anexina V foram significativamente mais altos no começo da gravidez (P=.03) e nas sexta (P=.01) e oitava (P=.01) semanas de gravidez nas mulheres com anticorpos antifosfolípides, comparadas com aquelas sem os autoanticorpos.

A tendência a ter níveis plasmáticos elevados de anexina V foram observados naquelas mulheres cujas gravidezes terminaram em abortos espontâneos, em comparação com aquelas cujas gravidezes foram bem sucedidas, embora os resultados não tenham alcançado significância estatística (P=.10). Não houve diferença significativa nos níveis plasmáticos de anexina IV entre mulheres com ou sem anticorpos antifosfolípides.

Os autores concluíram que pacientes com abortos espontâneos recorrentes mostram níveis plasmáticos elevados de anexina V na presença de anticorpos antifosfolípides. Esses anticorpos podem deslocar anexina de superfícies fosfolípides aniônicas de sinciciotrofoblastos e deste modo iniciar a ativação da coagulação.
 
 
Ulander V-M, Stefanovic V, Masuda J, et al. Plasma levels of annexins IV e V in relation to antiphospolipids antibody status in women with a history of recurrent miscarriage. Thrombosis Res., 2007;120:865-870.

 

 

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